terraemcena

No dia 21 de agosto de 2012 ocorreu um momento marcante, o encontro de dois tempos históricos da produção do Teatro Político brasileiro. No Encontro Unitário Trabalhadores e Trabalhadoras dos Povos do Campo, das Águas e das Florestas, após 52 anos do primeiro encontro nacional de camponeses do Brasil, foi reapresentada uma versão adaptada da peça Mutirão em Novo Sol, escrita por Nelson Xavier, Augusto Boal, Modesto Carone, Hamilton Trevisan e Benedito Araújo.
O elenco foi composto pelo núcleo da Brigada Semeadores (MST-DF/E), com participação de atrizes do elenco do Coletivo TERRAemCENA, do campus de Planaltina da UnB, de estudantes do curso de Agroecologia do Instituto Federal de Brasília e de militantes do MST/MS e do MST-SE.


A peça até hoje não foi publicada, mas desde 2008 ela é trabalhada nos cursos da Educação do Campo, nos cursos de Artes do Pronera, e nos cursos internos de formação do MST e da Via Campesina. Nelson Xavier tinha a peça guardada em sua biblioteca pessoal, uma versão datilografada, de 1962, data da montagem da peça pelo MCP, dirigida por ele.

A peça teve uma versão gravada para rádio pela turma de Comunicação e Cultura de ensino médio do Iterra, a Semeadores fez algumas montagens da versão adaptada, no assentamento Gabriela Monteiro, no Instituto Federal de Brasília e no campus de Planaltina da UnB.

Por cerca de meia hora, os 5 mil militantes participantes do encontro assistiram em silêncio a montagem, concentrados no desdobramento do julgamento dos camponeses pelo conluio entre o Juiz e o Coronel Porfírio. Ao final, a plenária acolheu o grupo com uma bonita salva de palmas e, em seguida, Nelson Xavier deu belo depoimento sobre o engajamento dele e de seus companheiros, Augusto Boal, Vianinha, Guarnieri, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio, na década de 1960. Emocionado, em fala que comoveu a todas e todos que lhe escutavam, ele disse que sentiu que a sua vida foi útil, pelo significado que a peça tem até hoje, para tanta gente.

Depois, militantes da Cultura e Comunicação dos movimentos ali presentes, os estudantes da turma do curso de Artes que o MST tem com a UFPI, e o elenco da peça, tiveram conversa de mais de duas horas com Nelson, momento em que ele explicou com riqueza de detalhes como funcionava o Movimento de Cultura Popular (MCP) e o Centro Popular de Cultura (CPC), além a forma organizativa e dos embates internos no Teatro de Arena. Ele enfatizou que o golpe foi o marco de virada regressiva para boa parte daquela militância engajada, que depois teve que procurar um meio de sobreviver.

Enfim, há muito o que contar dessa conversa, e do que aprendemos com a montagem dessa peça, sobre a relação entre qualidade estética e tendência política que Walter Benjamin tanto falava, sobre a função do teatro de agitação e propaganda, tão injustamente renegado por décadas, e desde o trabalho de Iná Camargo Costa (A hora do teatro épico no Brasil/1996) devidamente recuperado para o debate sobre cultura e política de interesse da classe trabalhadora.

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