Entrevistamos o professor Luiz Carlos Zytkuewisz que é Consultor Voluntário e Procurador do Instituto LARUS, que realiza o Plano de Manejo do Parque Municipal do Itiquira.

Entrevistamos o professor Luiz Carlos Zytkuewisz que é Consultor Voluntário e Procurador do Instituto LARUS, que realiza o Plano de Manejo do Parque Municipal do Itiquira.

Entorno Urgente: Como é constituída o Larus?
Luiz Carlos: Em primeiro lugar obrigado pelo convite e pela oportunidade de divulgarmos nossa entidade, uma ONG, sem fins lucrativos, declarada de Utilidade Pública na sua sede e no âmbito de todo o Estado de Santa Catarina por força de Lei Estadual.

Em segundo lugar, é importante frisar que, pouco à pouco, nossos sonhos da década de 70 e 80 se transformaram em ações efetivas em prol da natureza e de nós mesmos.

O LARUS é decorrente de um movimento denominado Mel – Movimento Ecológico Livre em Florianópolis e Região, nasceu como projeto em 1981 e transformou-se oficialmente em Instituto no início dos anos 90.

Entorno Urgente: Onde e porquê foi criada o Larus?
Luiz Carlos: O LARUS é o nome de uma gaivota mergulhadora e pescadora que representa o símbolo de um “projeto” de defesa da natureza e de ambientes aquáticos da Ilha de Santa Catarina – Florianópolis. Agora, desde 2013, ele se estende ao Centro Oeste brasileiro, principalmente, com preocupações voltadas ao importante Bioma do Cerrado de Goyaz.

Nascido e concebido por Alcides José Dutra e outros dentro da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o LARUS iniciou suas atividades como “projeto” no início dos anos 80 para o qual contribuí na busca de recursos junto a agência de fomento na França.

Em 1982 lançou o filme “O fascinante Mundo das Ilhas Oceânicas” reprisado no dia de Natal de 1982 pela RBS TV devido as dezenas de milhares de pedidos dos telespectadores. Este acervo hoje pertence a RBS TV.

Em 1983, lançamos pelo LARUS o filme Os seres do Mar com imagens inéditas de tubarões filmadas no sul do Brasil, momento em que a equipe do LARUS sob a coordenação de seu presidente Alcides Dutra, identificou, pela primeira vez no Atlântico Sul Ocidental o “ouriço gigante – astropya magnífica”.

Posteriormente foram criadas séries para TV como Minuto Ecológico que ficou no ar da RBS TV (Rede Globo) por 2 (dois) anos (88 e 89) sendo premiado como o melhor “case” em 1990 e vencedor de “Top de Marketing” concedido ao seu patrocinador no mesmo ano.
(Ver versão sem assinatura do patrocinador em https://www.youtube.com/watch?v=fN1VllN4-r4).

Dando sequência, em 1996 implantou o primeiro Programa Estadual de Educação Ambiental do Brasil. Em Santa Catarina foram Capacitados 1037 professores e técnicos de todo o estado. O Programa fez parte do projeto Viva a Floresta Viva.

No ano 2000, foi lançado o projeto A Escola Faz o Vídeo, criando um significativo incremento de eficiência no processo de mobilização social para defesa da Natureza. Este trabalho foi selecionado pela ONU – Habitat – LA, ficando como referência mundial.

(Disponível em: http://www1.an.com.br/ancapital/2001/out/25/index.htm; http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2001/12/04/2957-projetoapoiado-. .

Em 2003, foi lançada a série Redescobrindo o Mar, também na RBS-TV (Rede Globo). Esta série ficou 5 (cinco) anos no ar e foi disponibilizada para a Rede Globo Internacional, para exibição em 117 países.

Alguns episódios estão disponíveis da internet: https://www.youtube.com/watch?v=QhjWwDwVXCQ

De lá para cá foram efetuados outros documentários e pílulas como vídeos demo que inspiraram e contribuíram para a criação de outros documentários pela própria Rede Globo, a exemplo de “ABC da Amazônia”, “Você Sabia”, “Globo Natureza”, “Globo Mar” e outros similares.

Assim, nesssa trajetória percorrida no período de 1982 até 2015 foram incontáveis atividades de pesquisa, de produção cinematográfica, produção áudio visual e de mobilização realizadas no sul do Brasil. Só em Florianópolis, atuou em diversas ações de criação de RPPN, de mobilização, de defesa e de proteção ambiental como algumas vinculadas a preservação da Lagoa da Conceição, da Lagoinha do Leste, da Bacia do Rio Tavares, do Ribeirão da Ilha e até na Barra da Lagoa da Conceição. Neste último, já transformado em Instituto, contribuiu juntamente com a UFSC no embargo da Marina Porto da Barra (do qual participei) pertencente ao forte Grupo Empresarial Portobello. Não fosse tal atitude o criadouro natural de camarões, tainhas, sirís e outros animais e flora da Lagoa da Conceição, do canal da Barra e da própria Praia da Barra não existiriam mais.

Estruturalmente tem uma equipe diretiva formada por técnicos e docentes de IES – Instituições de Ensino Superior e da própria UFSC e, como afiliados, um banco de “consultores voluntários cadastrados” UFSC e de outras universidades brasileiras como UFG e UnB. São acadêmicos, graduados, especialistas, mestres, doutores e pós doutores, de todo o Brasil e do Exterior, todos ávidos por garantir a vida no planeta, sem retórica, para nós, para nossos filhos e nossos netos. O LARUS mantém parcerias formais e informais com órgãos públicos federais, estaduais e municipais.

Entorno Urgente: Formosa hoje é a cidade mais importante da região. Com população de quase 110 mil habitantes centraliza as iniciativas empreendedoras da região. Nesse contexto, qual a atuação do Larus?
Luiz Carlos: Em Formosa e região o LARUS ainda está iniciando suas atividades. Mas, mesmo assim podemos elencar como atuação, a elaboração de “vídeo demo” sobre a riqueza do Cerrado enquanto fonte de produção de flora medicinal (ver Youtube / www.larus.org.br), palestra pública num Ciclo de Palestras tratando de agroecologia e educação ambiental – Programa Terças Ambientais sobre a importância do Bioma do Cerrado em Formosa (contou com mais de 160 espectadores em outubro de 2013). Este programa conta com a parceria da EMATER Goiás desde esta data e trouxe ícones do estado como o Prof. Vilmar Rocha atual Secretário da SECIMA, o Agrônomo Alécio Maróstika da SEAGRO, o Prof. Mestre José Augusto dos Reis da UFG dentre outros.

Desde início de 2014, o Instituto vem trabalhando juntamente com a EMATER Goiás, uma cooperativa e nove associações de produtores familiares (de Planaltina, Formosa e Flores de Goiás) criando a Rede Planalto de Produção e Manejo Sustentável, com o intuito de promover, estimular e respaldar as ações de produção da agricultura familiar e sustentável.

Em 2015, a preocupação e ações estão sintonizadas naquelas voltadas a proteção de nascentes e matas ciliares dos corpos hídricos do município de Formosa e Região, principalmente da Microbacia Hidrográfica do Ribeirão Itiquira. A Microbacia Hidrográfica do Ribeirão Itiquira precisa de muitos cuidados. A cabeceira dessa Microbacia encontra-se em acentuada e significativa degradação devido as plantações intensivas até as margens do Córrego Vendinha e outras atividades agropecuaristas junto as margens dos Córregos Baú e Bauzinho. Estão dizimando a Mata Ciliar, secando as nascentes, efetuando pequenas barragens e, extraindo areia do “complexo ecossitêmico” que forma o nascedouro das Cachoeiras do Indaiá e do próprio Salto do Itiquira. Não é por acaso que a Agropecuária Malibú, por volta de 2005, foi multada em milhões de reais após provocar prejuízos irreparáveis com barragem inapropriada construída na região. Provocou prejuízos aos vizinhos, derrubou árvores, provocou assoreamento e outros danos mais que poderiam muito bem ser evitados.

Não podemos nos prender apenas ao que é legal. Atividades humanas podem ser legais e, ao mesmo tempo, não serem vitais. Se não adotarmos posturas enérgicas e imediatas as Cachoeiras do Indaiá assim como o próprio Salto do Itiquira, vão secar num futuro muito próximo, os indícios estão aí para todos verem.

Entorno Urgente: Hoje o Parque Municipal do Itiquira é um dos patrimônios do município que possui dezenas de pontos turísticos. Para a Larus, qual a importância desse patrimônio para os brasileiros?
Luiz Carlos: O Parque Municipal do Itiquira é de grande e real importância, pois além de ser palco de visitantes ilustres da nobreza portuguesa há mais de dois séculos atrás, foi palco também de interesse científico de pesquisadores e estudiosos europeus na segunda metade do ano de 1.800 - a famosa missão Crulz.

Outra observação é a de que toda a área da Região da Microbacia Hidrográfica do Ribeirão Itiquira com suas mais de 60 (sessenta) nascentes, matas de galeria e ciliar e contribuintes hídricos (córregos, riachos e ribeirões) apresenta fauna e flora exuberante no seu interior e componentes abióticos suis generis que nos faz inferir que o Salto do Itiquira apresentou movimentos nos transcorrer das centenas de anos atrás, quer por sua formação geológica, quer pelo regime das águas das chuvas incidentes na área.

A biodiversidade de flora e fauna, a queda d’água e a vazão de água observado no Ribeirão não é só motivo de cuidados especiais como também de intensificação de estudos e pesquisas.

O Parque Municipal do Itiquira é uma Unidade de Conservação da categoria de Proteção Integral por sua configuração ambiental e cultural. Área de belezas cênicas próprias para pesquisas, estudos, educação ambiental e turismo controlado (ou seja, ecoturismo). Mantém interdependência com os Córregos Vendinha, Baú e Bauzinho, com as cachoeiras do Indaiá incluindo-se o Salto da Felicidade e se apresenta como importante contribuinte do Rio Paranã.

É esse o patrimônio dos formosenses e brasileiros que se quer e deve ser tratado com respeito, preocupação e consciência.

Entorno Urgente: Vocês exporam no Aniversário de Formosa uma tenda demonstrando o instituto para a população. Como foi a aceitação da população?
Luiz Carlos: A tenda não foi para divulgação do Instituto LARUS. O Instituto LARUS foi contratado pela Prefeitura Municipal através de sua Secretaria Municipal de Turismo para elaborar o Plano de Manejo do Parque Municipal do Itiquira. A tenda instalada no aniversário da cidade foi com o intuito de sentir a relação da sociedade local, através daquela amostra, com o Salto do Itiquira, o Parque Municipal e demais aspectos vinculados a natureza local. Foi maravilhosa a recepção e aceitação. Houve a demonstração explícita que o povo de Formosa tem preocupação ecológica e noção da importância do Parque do Itiquira. Se preocupa com a natureza, a água, aflora e a fauna local. Recebemos aproximadamente 1 (uma) pessoa a cada 3 (três) minutos, um público de 34 pessoas, voluntárias, não induzidas que, por curiosidade vieram até a tenda e opinaram sobre suas “percepções a respeito do Itiquira”. Não divulgamos, não fizemos propaganda e nem sequer anunciamos.

Percebe-se que as pessoas tem medo de se manifestar. Formosa merece e necessita urgente da preocupação dos governantes e empresários de outros setores sobre as questões ecológicas municipais e regionais.

Entorno Urgente: Você, Luiz, investiu muito em educação ambiental. Qual seus feitos mais importantes?
Luiz Carlos: Investi como também vivenciei lutas em prol das “questões ambientais” e tive a oportunidade e a honra de participar de projetos pontuais. Foram inúmeros movimentos e atuações. A minha visão de Educação Ambiental sempre foi além do cuidado da Flora e Fauna.

Iniciou na década de 70 com atuação em defesa da Lagoa da Conceição, pois naquela época já queriam aterrar a Lagoa da Conceição para loteamento, no entanto, graças aos nossos movimentos ela permanece lá até hoje.

Na década de 80 outras tantas ações como a preocupação com a Lagoinha do Leste em Florianópolis e, principalmente, preocupações relevantes com o “saneamento rural” no estado onde se combatia o despejo de “borra de agrotóxicos nos rios”, “lançamento de recipientes de agrotóxicos a céu aberto” e outros tantos problemas. Na mesma década participei da criação dos “Agentes Voluntários de Meio Ambiente” junto a Fundação de Meio Ambiente do Estado – SC e, da implantação das Conferências Municipais e Regionais de Meio Ambiente, Foruns Regionais permanentes.

No início dos anos 90, construí algumas Agendas 21 para Florianópolis e outros municípios do Estado. Elaborei em 1995, juntamente com equipe técnica, na Região do Vale do Itapocu o PBDE – Plano Básico de Desenvolvimento Ecológico Econômico para a região mais rica do Estado de Santa Catarina – Região Norte (Joinville, Jaraguá do Sul, Schroeder e outros municípios). Esta região conciliou atividades do setor secundário (indústria) e setor primário (agricultura não intensiva e diversificada) com as atividades turísticas de todos os tipos. Após esse trabalho inúmeras RPPNs surgiram na região. Outro importante feito nesta década foi, por volta de 95-96, o embargo da Marina Porto da Barra do Grupo Portobello que ia danificar todo o ciclo biogeoquímico dos ecossistemas existentes no canal da Barra da Lagoa da Conceição.

Em fins da década de 90 e início dos anos 2000, atuei com comunidades indígenas junto ao Ministério da Justiça ONU/UNESCO onde foram apresentadas propostas ousadas como a de conjunto musical de índios (os Kraô /Pernambuco), participei da resolução de conflitos dos Pataxó/Bahia, levei contribuições e sugestões aos Kaingang/Santa Catarina e, participei da obtenção com o apoio do Ministério Público, de recursos acima de 3 milhões de dólares do Consórcio INVESTCO (multinacional) para os Xerente/Tocantins, a título de compensação ambiental devido a degradação provocada pela UHE Lajeado – Usina Hidrelétrica Luis Eduardo Magalhães (Miracema-TO e Tocantínia-TO).

Em 2002, colaborei com o governo do estado de Tocantins na formação e preparação de Professores Indígenas de diversas etnias daquele estado.

Por volta de 2006 pela ONU/PNUD preparei instrumento técnico de levantamento de dados de todo Brasil para “avaliação da efetividade das ações de Educação Ambiental”. Já em 2008, pela ONU/OEA atuei com equipe de elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos do Mato Grosso do Sul.

Em 2009 e 2010, elaborei o Plano de Manejo da Reserva Extrativista Caeté-Taperaçú em Bragança-PA e o Plano de Manejo da Reserva Extrativista Tracuateua na cidade de mesmo nome, através da ONU/PNUD.

Por último, 2014 faço parte e coordeno uma equipe técnica de consultores voluntários do Instituto LARUS que vem se incumbindo do Plano de Manejo do Parque Municipal do Itiquira de Formosa-GO.

Entorno Urgente: O Movimento por uma “Formosa Verde” é uma das iniciativas que vem somar ao meio ambiente. O que você acha do movimento?
Luiz Carlos: O Movimento Formosa Verde só confirma nossas colocações anteriores a cerca da aceitação da população no que tange as suas preocupações com a “natureza” de Formosa.

Lógico e óbvio que o “Movimento Formosa Verde” foi e será uma mobilização de grande valia para a preservação e conservação desse imensurável patrimônio ambiental que é o Itiquira e outros tais como a Cachoeira da Água Fria, Sítio Arqueológico do Bisnau e Cachoeira do Bisnau, Cachoeiras do Indaiá, o Buraco das Araras e outros tantos ambientes dotados de beleza cênica, de biodiversidade, de cultura e de sustentabilidade ecológica, se assim for mantido. Feliz idéia a do Prefeito Itamar Barreto, do Secretário Jurídico Luiz Antônio Guimarães, do empresário Marco Garzon e outros atores pensantes do município de Formosa.

Precisamos preservar nossas águas, nossas matas e espécies nativas, arborizar (...e muito) os aglomerados e núcleos urbanos do município, enfim, precisamos cuidar do nosso meio ambiente, para hoje e para amanhã. Não dá para esperar mais. Vejam as mudanças climáticas, o efeito estufa, a escassez de água e outros fenômenos mais. Temos que rever a matriz econômica a ser adotada pelo município para os próximos 25 anos. Não basta mais “fazer de conta”.

O cuidado, a conservação e a preocupação começa em casa. Só cuidando da nossa casa é que poderemos dizer que estamos cuidando do estado, do Brasil e do Planeta. São raras as cidades no Brasil que deflagraram tais campanhas e tais atitudes. Temos Curitiba-PR, Florianópolis-SC, Varre-Varre - RJ e outras poucas que tem tido algumas preocupações nesse sentido.

Estão de Parabéns. Agora nos resta ir à luta. Contem conosco. Contem com o Instituto LARUS Cerrado em atuação nesta cidade de Formosa.

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