Cooperativa nasceu da necessidade de colonos do Sul que chegaram a uma área sem infraestrutura, a 55 quilômetros de Brasília, e hoje ajuda a gerir a AgroBrasília, que recebe até 180 mil visitantes por edição.

O cooperativismo costuma abrir caminhos onde, à primeira vista, há poucas possibilidades. Foi assim no Distrito Federal, onde, na década de 1970, uma cooperativa agropecuária começou a semear lavouras em uma área de Cerrado até então inóspita.

A história começa em 1978, um ano depois da criação do Plano de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF), estratégia do governo local para atrair produtores rurais de outras regiões, principalmente do Sul, com tradição agrícola e mentalidade cooperativista. A ideia era formar um cinturão verde que garantisse alimentos frescos e a preços justos à população da capital, fundada havia menos de 20 anos.

A realidade, porém, foi mais dura que a promessa. Os primeiros colonos encontraram terra árida e falta de infraestrutura em uma área de difícil acesso, a 55 quilômetros de Brasília. Para conseguir insumos e organizar a produção, fundaram a Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF).

A família de Leandro Maldaner chegou ao PAD-DF em 1984, vinda do interior do Rio Grande do Sul. Foram mais de 2 mil quilômetros de caminhão, com cachorros e galinhas, até um galpão de madeira com teto de lona. Hoje vice-presidente da Coopa-DF, Maldaner lembra que, ao chegar, o pai logo procurou uma cooperativa. "A cooperativa é igual ao ser humano: cresce nas dificuldades", resume. Para ele, "é união, é crescer junto".

Semente de futuro

Nos primeiros anos, os cooperados plantavam arroz e, depois, soja. A produção de sementes ganhou espaço e chegou a abastecer outros estados, como Mato Grosso. Com os resultados, a cooperativa abriu filiais em Unaí, Formosa, Cristalina, Luziânia e Padre Bernardo, mas a expansão trouxe problemas de comunicação, gestão e finanças, e as unidades acabaram desmembradas em organizações independentes. Segundo Maldaner, a queda dos preços numa época em que a cooperativa fornecia insumos e comprava grandes volumes da produção a levou a dificuldades financeiras.

O engenheiro agrônomo e cooperado Cláudio Malinski chegou à região em 1980, passou por diferentes funções, integrou a diretoria e hoje atua no Conselho Fiscal. "Eu tive a felicidade de estar presente tanto nos momentos difíceis como nos momentos em que a cooperativa se recuperou", diz. Na avaliação dele, a Coopa-DF cumpriu seu principal objetivo: "a cooperativa não cresceu tanto quanto poderia em patrimônio, mas permitiu que os associados crescessem muito".

A chegada do trigo

Ainda nos anos 1980, com a expansão da irrigação, a soja passou a dividir espaço com ervilha e feijão. O avanço da agricultura, porém, trouxe problemas ao solo, e o trigo surgiu como alternativa por proteger a superfície contra a erosão, melhorar a estrutura da terra e ajudar na ciclagem de nutrientes para as safras seguintes.

Os produtores logo esbarraram em outro obstáculo: não havia mercado para o cereal. A saída foi industrializar, e em 1994 os cooperados aprovaram em assembleia a construção da indústria de trigo da cooperativa. O trigo do Cerrado ainda precisava alcançar a qualidade exigida pela indústria para competir com a matéria-prima importada, o que exigiu investimentos em pesquisa e tecnologia. Segundo Maldaner, o trabalho da Embrapa com o departamento técnico da cooperativa gerou variedades adaptadas e "um trigo de excelente qualidade" no Cerrado. A produção passou a abastecer a indústria própria e deu origem à farinha de trigo Buriti.

Colhendo resultados

O trigo também fortaleceu outra vocação local: as sementes. Segundo Maldaner, a altitude de cerca de 1.000 metros acima do nível do mar favorece o cultivo de sementes de trigo, milho e soja e ajudou a consolidar a área como polo produtor.

Para Malinski, as vantagens do modelo aparecem na rotina da lavoura. Em sua propriedade há unidade de secagem, beneficiamento e classificação de grãos, estrutura que, segundo ele, não se sustentaria sozinha: "numa pequena propriedade, é inviável". O cooperado afirma ainda que a cooperativa permite negociar a produção antecipadamente, acessar mercados e comprar insumos em maior volume, além de abrir portas para viagens, contato com pesquisadores e novos conhecimentos.

Vitrine do cooperativismo do Cerrado

Em 2008, a Coopa-DF ajudou a criar a AgroBrasília, feira de tecnologia e negócios para empreendedores rurais de todos os portes. A cooperativa participa da gestão do evento, que reúne produtores, empresas e instituições de pesquisa e recebe, em média, de 150 mil a 180 mil visitantes por edição. Maldaner ressalta o alcance da feira para além do campo: "a gente alavanca a economia da região toda", incluindo turismo, transporte, alimentação e hotelaria.

A feira também aproxima o setor das novas gerações. Pelo projeto Caminho das Escolas, realizado com apoio do Sicoob, a Coopa-DF leva estudantes da rede pública da região para conhecer as novidades do campo e os princípios do cooperativismo. A parceria se estende ao longo do ano, com apoio a eventos culturais nas escolas e doação de farinha Buriti e outros produtos para a merenda dos alunos.


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