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Imagem: Anamaria Diniz - Acervo Família Corrêa Lima
“Lá tem uma planta em nanquim da cidade inteira, com mais de 3 metros de comprimento. É uma maravilha.” A empolgação com que fala a arquiteta e professora Anamaria Diniz se justifica. Há quase 10 anos, por conta de um mestrado e agora de um doutorado na Universidade de Brasília (UnB), ela vem mergulhando em um acervo precioso e até agora pouco explorado. Trata-se do patrimônio deixado pelo arquiteto, engenheiro, urbanista e paisagista Attílio Corrêa Lima, o homem que assina o primeiro projeto de Goiânia, um tesouro composto por anotações, plantas, esboços, correspondências e desenhos que contam parte do nascimento da nova capital do Estado nos anos 1930. Esse material está na casa do filho de Attílio, o arquiteto Bruno Corrêa Lima, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, aos cuidados dele e de sua filha, a museóloga Raquel Lima.

Os descendentes do urbanista abriram esse surpreendente baú de histórias para Anamaria, que deve publicar em breve um livro, resultado de sua dissertação de mestrado chamadaGoiânia de Attílio Corrêa Lima (1932-1937): Ideal Estético e Realidade Política. “Eu me surpreendi muito com o que encontrei”, admite a pesquisadora. Segundo ela, os documentos mostram equívocos históricos sobre o desenho da capital fundada por Pedro Ludovico Teixeira e demonstram o quanto a concepção primeira da cidade foi transformada. Ela, que agora trabalha na tese que tem título provisório de Attílio Corrêa Lima: Uma Construção de um Itinerário Pioneiro, pontua que os trabalhos deixados pelo urbanista contrariam versões disseminadas, como a de que ele desenhou o traçado básico da cidade inspirado no manto de Nossa Senhora ou que tenha pensado uma capital em estilo art déco.

“O Attílio era muito moderno e isso fica claro nos seus desenhos”, afirma Anamaria, referindo-se à escola modernista da arquitetura que começava a ter ressonância no final dos anos 1920. Foi nessa época que ele, já formado como engenheiro arquiteto pela Escola Nacional de Belas Artes, mudou-se para Paris, onde cursou, na prestigiada universidade Sorbonne, uma ciência ainda incipiente: o urbanismo. Lá, no Institut d’Urbanisme, o jovem com formação clássica, tem contato com o estilo moderno. “Houve um contraste”, alega Anamaria, citando como influência forte o russo Berthold Lubektin, que estava lecionando em Paris na época. Aquele contato mudou a visão profissional do jovem urbanista e foi assim que ele aceitou o convite de Pedro Ludovico para planejar a nova cidade, seduzido pelo discurso da novidade que o projeto proclamava.

“Goiânia bebeu desse modernismo que Attílio trouxe da Europa antes do Rio de Janeiro e São Paulo”, pondera Anamaria. Mais exatamente desde 1932, data anterior ao trabalho da comissão designada por Pedro Ludovico para a escolha do local onde seria erguida a nova capital. No acervo do urbanista há um documento detalhado, encadernado com capa azul, intitulado Relatório do Urbanista Corrêa Lima (1932-1935), em que na contracapa há a imagem do próprio Attílio no local onde surgiria Goiânia, numa foto datada de 1932. Nesse relatório, ele discorda do ponto exato da construção da Praça Cívica (veja quadros em anexo). Para a pesquisadora, o projeto de Goiânia foi muito distorcido desde sua elaboração. “Na prática, não vivemos na cidade planejada por Attílio”, atesta Anamaria.

Perfil - Attílio Corrêa Lima
O urbanista e arquiteto Attílio Corrêa Lima não nasceu no Brasil. Em 8 de abril de 1901, seus pais, o escultor José Octávio Corrêa Lima e Rosalia Marzia Benfaremo Corrêa Lima, estavam em Roma quando o filho único do casal veio ao mundo. Ele passou a primeira infância na Europa, de onde retornou aos 5 anos de idade. Em 1919 ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, concluindo o curso em 1922. No ano seguinte, iniciou o Curso Especial de Arquitetura, formando-se com louvor em 1925. A partir de 1926, passou a fazer trabalhos para a Prefeitura do Rio de Janeiro na reurbanização da cidade. Em 1927, foi para a França. Dois anos depois, começou a estudar urbanismo na Universidade de Paris, ligada à prestigiada Sorbonne. Logo após o nascimento de seu único filho, Bruno, Attílio retornou ao Brasil, em 1931.

No ano seguinte, recebeu a incumbência de projetar a nova capital de Goiás, após se destacar com trabalhos em Niterói. Ele chegou a morar em Goiânia com a família, ainda que, por um tempo, fizesse com frequência a viagem entre seu escritório no Rio de Janeiro e a cidade que ajudava a construir. Depois de alguns atritos, Attílio encerrou sua participação na construção de Goiânia em 1935, quando passou a atuar na remodelação do Recife. Depois de vários prêmios e diversas obras importantes, como os projetos da Granja Comari, hoje centro de treinamento da CBF, em Teresópolis, e os famosos jardins da residência do empresário Roberto Marinho, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, nos anos 1930 e 1940, Attílio voltava de uma viagem a São Paulo quando morreu, aos 42 anos, em um acidente aéreo no Aeroporto Santos Dummont, na Baía de Guanabara, em 27 de agosto de 1943.
Imagem: Anamaria Diniz - Acervo Família Corrêa Lima


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