No lugar onde antes se ouviam bençãos e orações, batem martelos e estacas. Pás revolvem a terra úmida, fria. Na pequena e centenária Igreja de São Sebastião, em Planaltina, a 40 quilômetros do centro da capital federal, os únicos ajoelhados são os operários, reparando as vigas de sustentação. As paredes, testemunhas de 143 anos de história, estão sendo preparadas para voltar aos gloriosos dias.

Jonatas Nunes, diretor de Preservação da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, carrega a responsabilidade de atender a um antigo anseio da população, de voltar a ver a igreja como fora concebida. “A gente nota na administração, na sociedade civil e nos moradores essa vontade de despertar o centro histórico”, diz. Nunes caminha pela obra, analisando paredes, vigas e piso. Realmente, há muito o que fazer. “Isso aqui era um grande largo. Com a urbanização, a rua subiu e a igreja acabou ficando em um buraco. A água das chuvas acaba empoçando ao lado da igreja, que tem problema de solo, instável”, explica.

O local não passa apenas por uma restauração. A igreja está sendo reforçada para corrigir os problemas que prejudicaram a estrutura ao longo dos anos. Vigas originais, de aroeira, serão preservadas, mas terão as bases trocadas, pois estavam infestadas de fungos. As telhas quebradas serão substituídas por outras da mesma época. Compradas em reformas de igrejas históricas em Goiás. Cada uma das telhas tem um formato diferente, com o molde da coxa do escravo que a fabricou. O piso, elevado em reformas anteriores, será novamente rebaixado e os tijolos, que até pouco tempo o revestiam, já não existem mais. O conceito original de piso de madeira será respeitado.

A falta de manutenção adequada levou a igrejinha à beira do desmoronamento, um dos grandes problemas a serem contornados. “A parte da frente da igreja, onde fica o altar, estava se soltando do restante. Estava pendendo para trás e puxando a estrutura, provocando rachaduras. Vamos fazer o travamento estrutural dela. Um travamento em 'X', com peças metálicas, para evitar que ela se mexa. Esse é o maior desafio”, diz.

O governo do Distrito Federal destinou R$ 500 mil para a obra. A cidade está acompanhando para que seja uma verba bem empregada. Simone Macedo, presidente e fundadora da associação Amigos do Centro Histórico, é uma das principais fiscais da população. “Foi feita uma comissão de dois historiadores, dois arquitetos e eu, como representante da sociedade civil. Essa comissão deve acompanhar a obra mais de perto. Por morar aqui, já tenho feito isso. Consigo uma autorização e vou lá”.

Simone destaca o resgate histórico como sua maior preocupação. “Estamos esperando que, além de serem sanados os problemas estruturais, a igreja volte às características originais. É o nosso bem maior, mais representativo. Estamos querendo que o restauro seja real. Em um dos restauros passados tiraram o sino. Queremos o sino de volta”.

De acordo com Jonatas Nunes, a busca pelas características originais da igreja não esquece esse detalhe. “Fizemos também uma pesquisa iconográfica na própria Secretaria de Cultura. Fotos antigas da igreja, inclusive com a torre do sino. Vamos refazer a torre do sino original”.

Apesar de ter muito trabalho pela frente, o diretor de Preservação já tem previsão para entrega da obra. “Depois da parte estrutural, tem o serviço de acabamento. Piso, revestimentos, tudo para voltar ao original. Nas paredes rachadas, vamos fazer um tratamento, chamado de 'costura'. Existe ainda uma equipe cuidando da restauração das imagens e da cruz de madeira que ficava aqui dentro. Estamos estimando a entrega da igreja, inclusive com as imagens, para final de maio”.

O padre Pedro Renato, na cidade há cinco anos, explica que a população, sobretudo os mais velhos, aguarda a volta da igreja que sempre frequentaram. “Os mais antigos têm manifestado a alegria na reforma. Já ocorreram outras reformas, mas elas não alcançaram as expectativas”.

O morador Guilherme Ribeiro, de 24 anos, também torce pelo resgate da história do local. “Essa reforma é importante porque a cidade é muito antiga e o Distrito Federal não tem muitos patrimônios históricos como esse, tão antigo. E a igreja também é uma identidade de Planaltina”.

No século 19, a pequena igreja foi erguida como forma de homenagear São Sebastião por curar a população de uma epidemia. Ao longo dos anos, foi palco de festas, cerimônias, pagamento de promessas e foi tombada pelo patrimônio histórico. Hoje, 143 anos depois, é a simpática igrejinha que depende de seus fiéis para erguê-la como era antes.

Edição: Carolina Pimentel
Fonte: Agência Brasil

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